O que esperar da COP17: a agenda que vai definir os próximos anos da biodiversidade global


Faltam poucas semanas para a COP17, em Yerevan, e a agenda oficial já dá o tom do que vem por aí: 12 dias de negociações técnicas e políticas que vão, na prática, decidir o ritmo da agenda global de biodiversidade até 2030. Reunimos os principais pontos para quem quer chegar em outubro sabendo exatamente o que observar.
1. A Revisão Global: o primeiro boletim de notas
A COP17 será o momento da primeira Revisão Global do Marco Global de Kunming-Montreal. A Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) reunirá informações dos países, a partir de relatórios nacionais apresentados voluntariamente pelas Partes, para avaliar os avanços, desafios e lacunas na implementação das metas. Até março de 2026, 125 dos 196 países haviam apresentado seus relatórios.
O objetivo principal recai sobre o alinhamento entre as estratégias nacionais e as 23 metas do Marco Global. As diretrizes incluem a proteção de 30% do planeta e a restauração de ecossistemas degradados até 2030. Uma segunda etapa de avaliação ocorrerá na COP18, em 2028.
A avaliação considerará as diferentes capacidades e contextos nacionais e não será baseada apenas em indicadores numéricos, especialmente porque ainda não há consenso sobre todos os indicadores necessários para medir o progresso.
2. Mobilização de recursos e redução de subsídios prejudiciais
A Estratégia de Mobilização de Recursos foi estabelecida em fevereiro de 2025, na sessão da COP16 em Roma. O acordo reafirma a Meta 19 do Marco Global e prevê a captação de US$200 bilhões anuais até 2030 a partir de fontes diversas. Os fluxos internacionais para países em desenvolvimento têm a meta de alcançar US$20 bilhões em 2025 e US$30 bilhões em 2030. Em Yerevan, a discussão avança sobre a consolidação desses recursos e os arranjos do mecanismo financeiro da Convenção.
Já a Meta 18 aborda a eliminação de subsídios governamentais nocivos à biodiversidade, com foco na redução de US$500 bilhões anuais até 2030. Após a conclusão da etapa de identificação desses subsídios em 2025, a conferência agora foca em sua eliminação ou reforma em setores produtivos como agricultura e energia.
3. Dados genéticos digitais (DSI) e o Fundo Cali
Um dos temas mais técnicos e estratégicos para empresas é a regulação do uso de informação de sequenciamento digital (DSI) de recursos genéticos. O Fundo Cali, criado na última COP, já recebeu doações, mas ainda não está operacional. Até setembro de 2026, o fundo registrou aportes de apenas US$ 6 mil provenientes de duas companhias, frente a uma ambiciosa estimativa global de arrecadação de US$ 1 bilhão anual. A adesão atual tem caráter voluntário e a execução permanece em fase inicial.
Na COP17, a discussão deve avançar sobre como serão definidos os aportes ao Fundo e, a partir disso, como os recursos poderão ser distribuídos.
4. Biologia sintética e biossegurança
A pauta de biologia sintética ganha espaço formal na agenda, junto com discussões sobre biossegurança e organismos geneticamente modificados. O debate deve tratar de como acompanhar os avanços dessas tecnologias e seus possíveis impactos sobre a biodiversidade. São temas que podem influenciar diretamente pesquisa, inovação e bioeconomia. A biossegurança de organismos vivos modificados é tratada no âmbito do Protocolo de Cartagena, cuja reunião ocorre em paralelo ao evento principal.
5. Gênero, povos indígenas e comunidades tradicionais
A COP17 deve avançar na implementação do Plano de Ação de Gênero da CDB, que amplia a discussão sobre a participação e os direitos das mulheres na conservação e na implementação do Marco Global de Biodiversidade.
Ao mesmo tempo, a conferência deve reforçar o papel de povos indígenas e comunidades tradicionais como guardiões da biodiversidade, além de discutir temas como conhecimento tradicional, acesso a recursos e repartição de benefícios. O órgão subsidiário permanente sobre o Artigo 8(j) e outras disposições relacionadas a povos indígenas e comunidades locais foi criado na COP16, em novembro de 2024, e realizou sua primeira reunião no início de 2026. Na atual conferência, a pauta concentra-se no avanço do funcionamento desta estrutura e em seu programa de trabalho. O escopo inclui diretrizes para a inserção de terras indígenas e tradicionais nos processos de planejamento espacial e avaliação de impacto ambiental. O evento também avalia a evolução do Plano de Ação de Gênero previsto no Marco Global.
6. A interface biodiversidade-clima-agricultura-saúde
Espera-se um esforço maior de integração entre a agenda de biodiversidade e as agendas climática, agrícola e de saúde, sinal de que essas conferências caminham para tratar os temas de forma cada vez menos isolada. Para empresas, essa aproximação importa porque amplia a necessidade de considerar a biodiversidade de forma integrada a temas como clima, uso da terra, cadeias de valor e saúde.
7. Créditos de biodiversidade
Os créditos de biodiversidade integram os instrumentos da Meta 19 voltados a estimular o investimento privado. O mercado global deste ativo encontra-se em estruturação, com diferentes países e organizações elaborando padrões próprios para medir ganhos de conservação em estágios distintos de maturidade.
A COP17 busca estabelecer diretrizes de governança com foco em integridade, transparência e participação de comunidades locais.
Por que ficar de olho
Cada um desses pontos tem um desdobramento prático: financiamento e DSI mexem diretamente com quem depende de recursos genéticos e bioativos; a Revisão Global deve ajudar a identificar avanços, lacunas e prioridades de implementação; e a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais reforça a importância de incorporar conhecimentos e experiências dos territórios às estratégias de conservação e bioeconomia.
Para o Brasil, a COP17 também será uma oportunidade de cooperação e troca de experiências, considerando sua experiência na construção de mecanismos regulatórios e sua posição como país megadiverso. O país pode contribuir para o debate compartilhando exemplos de soluções que funcionam, além de aprendizados sobre os desafios que ainda precisam ser superados.
A partir de 19 de outubro, vamos acompanhar a COP17, direto de onde as decisões estão sendo tomadas.
Acompanhe a GSS para ficar por dentro dos principais destaques.



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