COP17 em Yerevan: o que mudou na agenda global da biodiversidade


De 19 a 31 de outubro de 2026, Yerevan, na Armênia, recebeu a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), junto às reuniões dos Protocolos de Cartagena, sobre biossegurança, e de Nagoya, sobre acesso a recursos genéticos e repartição de benefícios. O encontro marcou a primeira Revisão Global do progresso coletivo em relação ao Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado em 2022 e composto por 23 metas para 2030.
O diagnóstico apresentado antes da conferência reforçou a urgência de acelerar a implementação: embora quase 90% das Partes tenham estabelecido metas nacionais e mais de 70% tenham enviado relatórios, menos da metade das metas nacionais avaliadas foi considerada no caminho para ser alcançada. O relatório global da CDB apontou lacunas de ambição e execução em várias frentes, servindo de base para as negociações em Yerevan. Para as empresas, o resultado dessa primeira avaliação global é especialmente relevante: a biodiversidade já está diretamente relacionada à gestão de riscos, ao financiamento, às cadeias de valor e às exigências regulatórias.
Decisões da COP17 e novas iniciativas para a biodiversidade
Ao longo das duas semanas de negociações, foram adotadas quase 50 decisões nos três fóruns da conferência: a Convenção sobre Diversidade Biológica, o Protocolo de Cartagena e o Protocolo de Nagoya. Os temas incluíram espécies exóticas invasoras, igualdade de gênero, educação, compartilhamento de informações, biossegurança, monitoramento, prestação de contas e cumprimento dos protocolos. Entre as medidas aprovadas estão o fortalecimento da detecção precoce, da troca de informações e da resposta emergencial a espécies exóticas invasoras, além de avanços nos mecanismos de monitoramento e na participação de povos indígenas e comunidades locais.
A Cúpula de Líderes, realizada antes da abertura oficial, resultou na Declaração de Yerevan, que reafirmou o compromisso com as metas de 2030 e destacou a necessidade de ampliar o financiamento, o monitoramento e a participação de governos, empresas, povos indígenas e comunidades locais. Durante o Segmento de Alto Nível, encerrado em 28 de outubro, foram anunciados mais de US$ 1,8 bilhão em novos compromissos de financiamento para a biodiversidade. Esse total reúne promessas e compromissos de diferentes fontes e não significa que todos os recursos já tenham sido desembolsados.
A conferência também registrou iniciativas da presidência armênia voltadas à reforma de incentivos prejudiciais à biodiversidade, à conservação de ecossistemas de montanha e água doce, ao monitoramento e ao fortalecimento de medidas efetivas de conservação.
Yerevan Pathway: o que muda para a implementação das metas de biodiversidade
Um dos principais resultados políticos da COP17 foi a adoção do Yerevan Pathway, um caminho para acelerar a implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal até 2030. A primeira Revisão Global confirmou que o mundo ainda está fora da trajetória necessária para alcançar as 23 metas estabelecidas. O resultado reforçou a necessidade de ampliar os esforços em áreas como financiamento, redução de incentivos prejudiciais à natureza, monitoramento e integração da biodiversidade às decisões econômicas.
O Yerevan Pathway busca orientar os próximos anos de implementação, com atenção à mobilização de recursos, ao apoio técnico e científico e ao alinhamento das políticas nacionais às metas globais. Para as empresas, esse direcionamento reforça a importância de avaliar suas dependências e impactos sobre a natureza, identificar riscos e oportunidades relacionados à biodiversidade e integrar esses fatores ao planejamento estratégico e à gestão corporativa.
Financiamento da biodiversidade: o Fundo Cali e a repartição de benefícios
A mobilização de recursos foi um dos temas mais sensíveis da COP17. As negociações envolveram formas de ampliar o financiamento internacional, reformar incentivos prejudiciais à natureza e fortalecer mecanismos de apoio à conservação. O Fundo Cali, criado para receber contribuições de empresas que utilizam informações de sequenciamento digital de recursos genéticos (DSI, na sigla em inglês), também permaneceu no centro das discussões. O mecanismo busca compartilhar os benefícios decorrentes do uso comercial dessas informações com a conservação da biodiversidade, especialmente em países em desenvolvimento e comunidades locais.
Em Yerevan, as Partes avançaram nas discussões sobre a operacionalização do fundo. Entre os encaminhamentos, está a criação de um grupo de trabalho para avançar nas questões operacionais antes da COP18. O debate também envolveu a relação entre o mecanismo multilateral de DSI e os sistemas de acesso e repartição de benefícios já existentes. Para empresas dos setores farmacêutico, cosmético, agropecuário e de biotecnologia, esses desdobramentos merecem atenção. As decisões podem influenciar obrigações, processos de conformidade e estratégias relacionadas ao uso de recursos genéticos e ao desenvolvimento de produtos.
A GSS acompanha essa agenda regulatória, incluindo as discussões sobre DSI, o Fundo Cali e a legislação brasileira de Acesso e Repartição de Benefícios (ABS). A evolução desses mecanismos exige atenção às definições técnicas, à rastreabilidade do uso de recursos genéticos e à segurança jurídica das operações.
A participação da GSS na COP17
A participação da GSS na COP17 também foi uma oportunidade de levar ao debate internacional questões relacionadas à experiência brasileira em biodiversidade, financiamento e estruturação de iniciativas de impacto. Em 27 de outubro, Francine Leal apresentou a trajetória de dez anos do Programa VBIO no evento paralelo “VBIO: Connecting Communities and the Private Sector for a Sociobioeconomy”, realizado no Finance and Business Hub, na Blue Zone. A sessão contou com a participação da AXIA Energia e da Natura e discutiu como conectar investimentos corporativos a projetos comunitários de sociobioeconomia.
Criada em 2016, durante a COP13, em Cancún, a VBIO desenvolveu um modelo de conexão entre cooperativas, associações de agricultores familiares e comunidades tradicionais, instituições de pesquisa e empresas interessadas em apoiar iniciativas socioambientais. Ao longo dessa trajetória, o programa trabalhou com projetos relacionados a cadeias de valor da sociobiodiversidade, segurança hídrica e alimentar, valorização de conhecimentos tradicionais e fortalecimento da liderança feminina. A apresentação em Yerevan celebrou essa experiência e discutiu possibilidades de adaptação do modelo a outros territórios e países. Atualmente, o Programa VBIO integra a Emissario, mantendo sua trajetória e atuação na sociobioeconomia.
No dia seguinte, 28 de outubro, a GSS liderou o evento “Can Biodiversity Credits Become Financial Assets? Evidence and Pathways from Brazil”, também no Finance and Business Hub. Com participação de Caroline Grassl, da Beraca, e Carolyne Caetano, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o encontro discutiu as condições necessárias para que créditos de biodiversidade possam vir a ser reconhecidos como ativos financeiros no Brasil. A discussão partiu de um mercado ainda em desenvolvimento. Um levantamento realizado pela CNI, com consultoria técnica da GSS, identificou mais de 60 iniciativas internacionais relacionadas a créditos de biodiversidade, em operação, fase piloto ou desenvolvimento regulatório.
Entre os desafios identificados estão a fragmentação de definições e métricas, a inconsistência na precificação, as diferenças nos processos de mensuração, relato e verificação (MRV) e a incerteza sobre o reconhecimento jurídico e financeiro desses créditos. O debate também abordou as condições necessárias para desenvolver instrumentos com integridade ambiental, critérios técnicos consistentes e mecanismos de comprovação dos resultados. A discussão não apresentou um modelo pronto, mas colocou em perspectiva caminhos possíveis e as salvaguardas necessárias para que o financiamento gere benefícios efetivos para a biodiversidade e os territórios.
Créditos de biodiversidade: desafios para o desenvolvimento do mercado
A discussão realizada na COP17 reforçou que o desenvolvimento de um mercado de créditos de biodiversidade depende de mais do que interesse de investidores e empresas. É necessário estabelecer critérios claros para mensurar resultados, avaliar a integridade ambiental das iniciativas e garantir transparência na geração e na comercialização dos créditos. O levantamento da CNI e da GSS contribui para esse entendimento ao mapear iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento e identificar obstáculos que ainda limitam a consolidação desse mercado. Para o Brasil, que reúne uma das maiores biodiversidades do planeta, existe uma oportunidade de desenvolver instrumentos capazes de direcionar recursos privados para a conservação e a restauração de ecossistemas. Para isso, será necessário avançar em metodologias, segurança jurídica, governança e mecanismos de monitoramento e verificação.
Do compromisso à prática: o que a COP17 deixa para as empresas
A COP17 reuniu decisões, compromissos financeiros e iniciativas para acelerar a agenda global de biodiversidade. Ao mesmo tempo, evidenciou que a implementação das metas de 2030 depende de recursos, articulação entre diferentes setores e mecanismos consistentes de monitoramento e prestação de contas. Para as empresas, acompanhar esses desdobramentos será importante para entender como as metas globais podem se refletir em políticas públicas, mecanismos de financiamento, regras de acesso e repartição de benefícios e práticas nas cadeias de valor.
A participação da GSS em Yerevan reforçou a importância de aproximar a agenda internacional da realidade das empresas brasileiras. Da conformidade com as regras de ABS e DSI à avaliação de riscos e dependências relacionados à natureza, passando pelo desenvolvimento de créditos de biodiversidade, os desafios exigem conhecimento técnico e capacidade de transformar diretrizes em estratégias aplicáveis. O próximo passo é levar os compromissos para a prática: integrar a biodiversidade às decisões corporativas, estruturar iniciativas consistentes e demonstrar resultados com dados e critérios verificáveis.
A GSS segue acompanhando a evolução da agenda global de biodiversidade e apoiando empresas na construção de estratégias que conectam sustentabilidade, gestão de riscos e oportunidades de negócio.



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